terça-feira, 31 de julho de 2012
PAULO FREIRE
(19/9/1921 – Recife // 02/05/1997 – São Paulo)
“(...) mais do que um ser no mundo, o ser humano se tornou uma Presença no mundo, com o mundo e com os outros.”
(Freire, P. Pedagogia da Autonomia, 1996, p. 18)
Paulo Freire marcou uma ruptura na história pedagógica do Brasil e da América Latina. Através da criação da concepção de educação popular ele consolidou um dos paradigmas mais ricos da pedagogia contemporânea, rompendo com a educação elitista.
Desenvolveu uma pedagogia crítico-libertadora, em sua proposta, o ato do conhecimento tem como pressuposto fundamental a cultura do educando, não para cristalizá-la, mas como ponto de partida para que ele avance na leitura do mundo, compreendendo-se como sujeito da história. É através da relação dialógica que se consolida a educação como prática da liberdade – mostra um novo caminho para a relação entre educadores e educandos.
Freire dá sua efetiva contribuição para a formação de uma sociedade democrática ao construir um projeto educacional democrático e libertador, lutando pela superação da opressão e desigualdades sociais. Elege educador e educando como sujeitos do processo de construção do conhecimento mediatizados pelo mundo, visando a transformação social e construção de uma sociedade justa, democrática e igualitária. Seu pensamento e obra é um marco na pedagogia nacional e internacional, representando um dos maiores e mais significantes educadores do século XX.
No livro Pedagogia da Autonomia, Paulo Freire alinha e discute alguns saberes fundamentais à prática educativo-crítica. Seu projeto educacional contempla a prática da consciência crítica por meio da consciência histórica. Construiu sua teoria do conhecimento com base no respeito pelo educando, na conquista da autonomia e na dialogicidade enquanto princípios metodológicos.
Seguem alguns tópicos sobre seu pensamento:
Formador – assumir-se como sujeito da produção do saber – ensinar não é “transferir conhecimento”, mas criar possibilidades para a sua produção ou sua construção.
Tarefa do educador – ensinar a pensar certo; produzir condições para a aprendizagem crítica; reforçar a capacidade crítica do educando.
Compreender e viver o processo formador.
Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender. Construção e reconstrução do saber ensinado ao lado do educador também sujeito do processo.
Antes de qualquer coisa é preciso conhecer o educando enquanto indivíduo inserido num contexto social. O importante não é transmitir conteúdos específicos, mas despertar uma nova forma de relação com a experiência vivida.
“Ensinar exige respeito aos saberes dos educandos.”
Para Paulo Freire, pensar certo implica no respeito à capacidade criadora do educando. É primordial o compromisso do educador com a consciência crítica do educando.
Faz parte da natureza da prática docente a indagação, a busca, a pesquisa – formação permanente.
Educador / Educando devem assumir-se como ser social e histórico, como ser pensante, comunicante, transformador, criador, realizador de sonhos.
Ensinar exige criticidade. O exercício educativo tem um caráter formador.
O exercício da criticidade implica na promoção da curiosidade ingênua à curiosidade epistemológica.
Idéia principal de Paulo Freire: qualidade na educação. Para ele qualidade requer esforço contínuo e clareza nas ações políticas, superação de realidade, mobilizações sociais, trabalho em equipe, criticidade, diálogos, ações e re-ações. A qualidade também se refere à qualidade de vida, de amor, de respeito, de humildade, de entendimento cultural, político e social.
“Não temos como falar em qualidade na educação sem refazer o caminho inicial da discussão, a valorização do ser humano enquanto ser ético, da práxis, do conhecimento e das transformações.”
No livro Pedagogia dos Sonhos Possíveis, Paulo Freire diz que nunca foi possível separar a leitura das palavras da leitura do mundo. A educação representa a formação e não treinamento. Educador deve ter uma compreensão crítica e um comprometimento ético de seu papel no mundo – ouvir vozes silenciadas. O educador vivo – clareza política – luta pela criação de um mundo menos discriminatório e mais humano, Freire ressalta o compromisso do educador com a consciência crítica do educando. Para ele, a incompletude envolve o educando num processo de reinvenção contínua do seu contexto social e histórico.
segunda-feira, 30 de julho de 2012
O PROCESSO DE AMADURECIMENTO PARA D. W. WINNICOTT
O PROCESSO DE AMADURECIMENTO EMOCIONAL DO SER HUMANO
O processo de amadurecimento é a explicitação temporal na forma de etapas, das várias tarefas que a tendência inata ao amadurecimento impõe ao indivíduo ao longo da vida.
Amadurecimento para Winnicott diz respeito à pessoa do homem, seria o processo de integração de vários aspectos da personalidade, não se trata da mente, do intelecto, mas sim daquilo que há de mais pessoal no homem. Assim, usa-se a palavra amadurecimento para designar aquilo que unifica uma pessoa, o que há de mais pessoal nela.
Para o autor, todo ser humano nasce com uma tendência a se integrar, a tornar-se um eu; até o fim da vida há um amadurecimento em curso. As características centrais do amadurecimento seriam a tendência inata à integração e o favorecimento ambiental, sobretudo no início e depois, no decorrer das relações humanas.
A saúde, para Winnicott, consiste em fazer o trajeto partindo do mundo subjetivo chegar à realidade externa sem perder o elo com o mundo subjetivo. Um processo de integração bem-sucedido leva a coexistência e trânsito entre a solidão essencial, a comunicação e encontro com o outro e com a realidade externa.
A ênfase da teoria winnicottiana do amadurecimento pessoal é dada aos estágios iniciais. O elemento diferencial desta teoria é entender tudo o que acontece com o ser humano nos estágios pré-primitivos – período de constituição acontece com o ser humano nos estágios pré-primitivos – período de constituição do PROCESSO DE AMADURECIMENTO
O processo de amadurecimento é a explicitação temporal na forma de etapas, das várias tarefas que a tendência inata ao amadurecimento impõe ao indivíduo ao longo da vida.
Amadurecimento para Winnicott diz respeito à pessoa do homem, seria o processo de integração de vários aspectos da personalidade, não se trata da mente, do intelecto, mas sim daquilo que há de mais pessoal no homem. Assim, usa-se a palavra amadurecimento para designar aquilo que unifica uma pessoa, o que há de mais pessoal nela.
Para o autor, todo ser humano nasce com uma tendência a se integrar, a tornar-se um eu; até o fim da vida há um amadurecimento em curso. As características centrais do amadurecimento seriam a tendência inata à integração e o favorecimento ambiental, sobretudo no início e depois, no decorrer das relações humanas.
A saúde, para Winnicott, consiste em fazer o trajeto partindo do mundo subjetivo chegar à realidade externa sem perder o elo com o mundo subjetivo. Um processo de integração bem-sucedido leva a coexistência e trânsito entre a solidão essencial, a comunicação e encontro com o outro e com a realidade externa.
A ênfase da teoria winnicottiana do amadurecimento pessoal é dada aos estágios iniciais. O elemento diferencial desta teoria é entender tudo o que acontece com o ser humano nos estágios pré-primitivos – período de constituição
Winnicott enfatiza a importância do ambiente saudável que acolha o gesto do bebê em direção à vida. Se o bebê não se desenvolver a partir de sua própria criatividade originária ele pode reagir, perde a espontaneidade (espontaneidade X reatividade). De uma certa forma, no decorrer do seu processo de amadurecimento, apesar da falha ambiental, o indivíduo pode mente e estabelecer uma integração defensiva - o falso si-mesmo - que irá permitir uma relação adaptada com o meio. A esse respeito Dias (2007) esclarece:
Apesar de o processo de amadurecimento não ser linear, algumas conquistas têm pré-requisitos [...] Ou seja, a resolução satisfatória das tarefas de cada estágio depende de ter havido sucesso na resolução dos estágios anteriores. Se ocorre fracasso na resolução da tarefa de uma certa etapa, novas tarefas vão surgindo, mas o indivíduo, não tendo feito a aquisição anterior, carece da maturidade [...] ele pode até resolvê-las, mobilizando a mente e/ou uma integração defensiva do tipo falso si-mesmo, mas, apoiadas em bases falsas, elas não farão parte intrínseca do seu si-mesmo como aquisições pessoais.
A mãe viva, que presta todos os cuidados, possibilita a constituição da temporalidade e da previsibilidade. O ser humano necessita de asseguramento, espaço, tempo e sentido de permanência para a continuidade de ser. Quando o bebê não alcança este encontro global, por meio desses cuidados regulares e previsíveis, fica em estado de alerta. Ocorrendo sucessivas descontinuidades o bebê não consegue mais ir para o estado tranqüilo, podendo desenvolver uma tendência paranóide.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
DIAS, E. A Teoria do Amadurecimento de D. W. Winnicott. Rio de Janeiro: Imago, 2003.
WINNICOTT, C. & SHEPHERD, R. & DAVIS, M. (Orgs) Explorações Psicanalíticas: D. W. Winnicott. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.
Sobre “O uso de um Objeto” (1968, cap. 34, p. 174) in Explorações Psicanalíticas (1994)
WINNICOTT, D. W. O Ambiente e os Processos de Maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983.
______. Natureza Humana. Rio de Janeiro: Imago, 1990.
domingo, 22 de julho de 2012
E AGORA? TÁ DIFÍCIL VIVER.....
POEMA BICARBONATO DE SODA
Álvaro de Campos / Fernando Pessoa
"... Uma angústia,
Uma desconsolação da epiderme da alma
Um deixar cair os braços ao por do sol do esforço....
Renego.
Renego tudo.
Renego mais que tudo.....
Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa o cérebro?"
Ao reler o poema de Pessoa penso sobre o sofrimento da alma que acomete tantas pessoas...
A depressão não escolhe idade,poder aquisitivo, gênero, nacionalidade... atinge o ser humano.. chega e instaura-se um vazio.. o vazio do existir...
Inexplicável, difícil de nomear, dar sentido... Como justificar aos outros que perguntam "Mas, por que você está assim?" ou "Você tem tudo... casa, trabalho, família..."
Perguntas que só trazem mais culpa para aquele que sofre.... "não tenho esse direito"...
E a culpa aumenta a dor...
As pessoas não sabem como lidar com um amigo, um familiar que está deprimido.. Não existe uma ressonância da alma.. um raio x qualquer que mostre a ferida, o vazio, o buraco..
A intensidade das emoções a fragilidade do ser remete a Pessoa que com palavras mágicas diz sobre o indizível..
Cuidado, carinho, amor é o que as pessoas deprimidas precisam..
A psicoterapia, aliada ou não a um acompanhamento psiquiátrico, obtem excelentes resultados.
Não dá para cruzar os braços e achar que "...isso passa".
Pode até vir uma melhora espontânea sim, mas é importante descobrir as causas subjacentes ao sintoma uma vez que, se não forem descobertas e tratadas num processo de terapia, os sintomas retornam.. batem à porta... muitas vezes com maior intensidade.
Não podemos minimizar nem banalizar o sofrimento do outro.. que luta dia após dia para sobreviver ao caos interno ...
Fica difícil viver assim..
domingo, 10 de junho de 2012
O SER HUMANO E O RESPEITO À ALTERIDADE
Neste dia em que aconteceu a "Parada GLBT", na cidade de São Paulo, ouvindo a música e a animação aqui da minha casa, pensei na importância das palavras sobre Direitos Humanos escritas por uma psicanalista a quem muito admiro.
A psicanalista Maria Rita Kehl ssinala que temos responsabilidade por todos os seres humanos. É necessário conseguirmos superar as diferenças e lidar com a alteridade. Isso nos manterá íntegros e humanos. Diz a autora:
"É a fraternidade no sentido de que a nossa humanidade depende da nossa vida em coletividade.
Nós dependemos uns dos outros.
O outro, além de ser o nosso rival ou alguém que pode nos importunar,
é o nosso parceiro e é o nosso espelho
Portanto, a degradação do outro degrada a minha dimensão humana. Então, a ideia do espirito fraterno que deve nortear a relação entre os homens é uma ideia não necessariamente do outro como estranho – também isso é importante -, mas do outro como uma dimensão da qual depende a minha própria humanidade" (KHEL, 2004, p. 31).
O "estranhamento" ao que é novo, às escolhas, às diferenças pessoais e sociais devem levar-nos à reflexão...evitando assim, uma ação impulsiva.
O importante é reconhecermos nossa própria falta de flexibilidade quando nos deparamos com identidades que não são àquelas ditas "tradicionais". Somos livres para lutar por nossos ideais, crenças e pelos nossos direitos políticos.
Finalizo com o artigo II da Declaração Universal dos Direitos Humanos - Nações Unidas de 1948:
"Todas as pessoas tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidas nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de qualquer outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento ou qualquer outra razão".
BIBLIOGRAFIA:
KEHL, Maria Rita. Subjetividade,Política e Direitos Humanos In: SILVA, Marcus Vinícius de Oliveira (coord). Psicologia e Direitos Humanos: Subjetividade e Exclusão. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004 (p. 29-40).
domingo, 27 de maio de 2012
A INTERDISCIPLINARIDADE E A PRÁTICA SOCIOEDUCATIVA
Artigo elaborado a partir das pesquisas e reflexões sobre Interdisciplinaridade de Ivani Fazenda
Fazenda (1996, p. 14, grifos meus) diz que “perceber-se interdisciplinar é o primeiro movimento em direção a um fazer interdisciplinar e a um pensar interdisciplinar”. Partindo desse pressuposto pretende-se promover uma reflexão, a partir das inúmeras pesquisas coordenadas por Ivani Fazenda que, desde 1986, está à frente do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Interdisciplinaridade na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP.
Pensar, numa perspectiva interdisciplinar, remete aos objetivos das Instituições executoras de medidas socioeducativas. Observa-se um esforço contínuo para introduzir na prática institucional a implementação de um atendimento humanizado e personalizado ao adolescente autor de ato infracional.
A interdisciplinaridade não pode ser apenas restrita ao discurso. É necessário o envolvimento e compromisso de todos os profissionais que compõe uma equipe e são responsáveis pela atenção socioeducativa, pelo cuidado prestado aos adolescentes.
A responsabilidade individual é a marca do projeto interdisciplinar, assim, os profissionais envolvidos no projeto estarão, por conseguinte, buscando elementos para revisitar antigas práticas e, num exercício de construção coletiva, introdução o novo que leva a mudança paradigmática.
Partindo das minhas observações, reflexões, estudos, escuta do outro, experiências profissionais, acadêmicas e minha trajetória de vida, passo a tecer considerações sobre os caminhos que a interdisciplinaridade pode desvelar e/ou legitimar o processo socioeducativo do adolescente como também à sua família.
No imaginário de alguns profissionais que atuam nas instituições qualquer conhecimento que leve a uma nova prática está intimamente ligado a uma transformação a um "desdizer o que já foi dito". Assim, estabelece-se uma sensação de impotência e fracasso frente ao desafio. A defesa utilizada é arraigar-se ao antigo: mesmo sendo ruim é o conhecido, novos caminhos são desconhecidos, assustam e paralisam alguns profissionais.
Esse "engessamento", impeditivo do crescimento pessoal e profissional do indivíduo prejudica a dinâmica institucional, o cotidiano em uma unidade. O profissional precisa de um espaço de troca, do reconhecimento do seu saber, do diálogo que romperá essa percepção fragmentária trazendo para a sua existência uma concepção global de mundo. Como diz Paulo Freire “O conhecimento se constitui nas relações homem-mundo”.
A interdisciplinaridade rompe limites, para isso Ivani Fazenda propõe a construção de um conhecimento globalizante, uma postura interdisciplinar de busca, de inclusão, de acordo e de sintonia. Dessa maneira, todos ganham com o "fazer socioeducativo" na linha interdisciplinar, os profissionais compromissados melhoram a interação com o grupo de trabalho.
A proposta de atuação socioeducativa passa a ser ágil e eficiente tendo a colaboração, parceria e diálogo entre a equipe, trata-se de um fazer coletivo e solidário. Para Ivani Fazenda a dialogicidade pressupõe a intersubjetividade ou seja, o pensamento do outro é tão válido quanto o meu para mim por isso, cada profissional envolvido na ação socioeducativa deve ter uma atitude aberta e receptiva. É primordial olhar o outro – olhar o que é latente e manifesto – desvelando as necessidades do outro enxergando-o como outro e olhar a si mesmo.
Todos ganham ao trilhar pelos caminhos da interdisciplinaridade: o adolescente tem voz e é ouvido considerando-se sua singularidade ao mesmo tempo que recebe os cuidados necessários ao seu desenvolvimento emocional. Além disso, os adolescentes aprendem a trabalhar em grupo, melhoram a interação entre eles, com os socioeducadores e com seus familiares.
O socioeducador é a referência do adolescente e dos seus familiares para tanto, deve ter clareza dos princípios que subsidiam a prática interdisciplinar, como elucida Ivani Fazenda: humildade, espera, respeito, coerência e desapego.
Ser referência é um lugar que implica envolvimento contínuo, uma troca com o grupo constante, uma avaliação e reavaliação da ação socioeducativa. É a responsabilização pela vida do outro e isso implica em ter apoio, suporte e referências. O profissional comprometido com a difícil tarefa de trabalhar com os adolescentes em conflito com a lei precisam da presença permanente da sua equipe, da troca intersubjetiva que o alimente como ser humano e profissional. É um movimento dinâmico, em forma de espiral, busca contínua com afetividade e muita ousadia.
A interdisciplinaridade, seus caminhos e descaminhos traz fundamentos conceituais e práticos que falam por si só. Esses fundamentos aplicados à prática influirão na forma de pensar o adolescente e a intervenção institucional. A trilha interdisciplinar aponta as possibilidades para o profissional seja ele o que atua diretamente ou indiretamente com o jovem infrator. Sua efetivação é, ao meu ver, um exercício, de construção e implantação de um novo paradigma.
BIBLIOGRAFIA
FAZENDA, Ivani Catarina Alves (Org.). Práticas Interdisciplinares na Escola. São Paulo: Cortez, 1996.
________. Interdisciplinaridade: qual o sentido? São Paulo: Editora Paulus, 2003.
________. Desafio e perspectivas do trabalho interdisciplinar no Ensino Fundamental Contribuições das pesquisas sobre Interdisciplinaridade no Brasil: O reconhecimento de um percurso. São Paulo: artigo não publicado (s/d).
TEIXEIRA, Maria Elisa de M. P. Interdisciplinaridade: mudança de concepção no ensino. Disponível em http://www.vestibular1.com.br/revisao/interdisciplinaridade Acessado em 2 de abril de 2010.
Fazenda (1996, p. 14, grifos meus) diz que “perceber-se interdisciplinar é o primeiro movimento em direção a um fazer interdisciplinar e a um pensar interdisciplinar”. Partindo desse pressuposto pretende-se promover uma reflexão, a partir das inúmeras pesquisas coordenadas por Ivani Fazenda que, desde 1986, está à frente do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Interdisciplinaridade na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP.
Pensar, numa perspectiva interdisciplinar, remete aos objetivos das Instituições executoras de medidas socioeducativas. Observa-se um esforço contínuo para introduzir na prática institucional a implementação de um atendimento humanizado e personalizado ao adolescente autor de ato infracional.
A interdisciplinaridade não pode ser apenas restrita ao discurso. É necessário o envolvimento e compromisso de todos os profissionais que compõe uma equipe e são responsáveis pela atenção socioeducativa, pelo cuidado prestado aos adolescentes.
A responsabilidade individual é a marca do projeto interdisciplinar, assim, os profissionais envolvidos no projeto estarão, por conseguinte, buscando elementos para revisitar antigas práticas e, num exercício de construção coletiva, introdução o novo que leva a mudança paradigmática.
Partindo das minhas observações, reflexões, estudos, escuta do outro, experiências profissionais, acadêmicas e minha trajetória de vida, passo a tecer considerações sobre os caminhos que a interdisciplinaridade pode desvelar e/ou legitimar o processo socioeducativo do adolescente como também à sua família.
No imaginário de alguns profissionais que atuam nas instituições qualquer conhecimento que leve a uma nova prática está intimamente ligado a uma transformação a um "desdizer o que já foi dito". Assim, estabelece-se uma sensação de impotência e fracasso frente ao desafio. A defesa utilizada é arraigar-se ao antigo: mesmo sendo ruim é o conhecido, novos caminhos são desconhecidos, assustam e paralisam alguns profissionais.
Esse "engessamento", impeditivo do crescimento pessoal e profissional do indivíduo prejudica a dinâmica institucional, o cotidiano em uma unidade. O profissional precisa de um espaço de troca, do reconhecimento do seu saber, do diálogo que romperá essa percepção fragmentária trazendo para a sua existência uma concepção global de mundo. Como diz Paulo Freire “O conhecimento se constitui nas relações homem-mundo”.
A interdisciplinaridade rompe limites, para isso Ivani Fazenda propõe a construção de um conhecimento globalizante, uma postura interdisciplinar de busca, de inclusão, de acordo e de sintonia. Dessa maneira, todos ganham com o "fazer socioeducativo" na linha interdisciplinar, os profissionais compromissados melhoram a interação com o grupo de trabalho.
A proposta de atuação socioeducativa passa a ser ágil e eficiente tendo a colaboração, parceria e diálogo entre a equipe, trata-se de um fazer coletivo e solidário. Para Ivani Fazenda a dialogicidade pressupõe a intersubjetividade ou seja, o pensamento do outro é tão válido quanto o meu para mim por isso, cada profissional envolvido na ação socioeducativa deve ter uma atitude aberta e receptiva. É primordial olhar o outro – olhar o que é latente e manifesto – desvelando as necessidades do outro enxergando-o como outro e olhar a si mesmo.
Todos ganham ao trilhar pelos caminhos da interdisciplinaridade: o adolescente tem voz e é ouvido considerando-se sua singularidade ao mesmo tempo que recebe os cuidados necessários ao seu desenvolvimento emocional. Além disso, os adolescentes aprendem a trabalhar em grupo, melhoram a interação entre eles, com os socioeducadores e com seus familiares.
O socioeducador é a referência do adolescente e dos seus familiares para tanto, deve ter clareza dos princípios que subsidiam a prática interdisciplinar, como elucida Ivani Fazenda: humildade, espera, respeito, coerência e desapego.
Ser referência é um lugar que implica envolvimento contínuo, uma troca com o grupo constante, uma avaliação e reavaliação da ação socioeducativa. É a responsabilização pela vida do outro e isso implica em ter apoio, suporte e referências. O profissional comprometido com a difícil tarefa de trabalhar com os adolescentes em conflito com a lei precisam da presença permanente da sua equipe, da troca intersubjetiva que o alimente como ser humano e profissional. É um movimento dinâmico, em forma de espiral, busca contínua com afetividade e muita ousadia.
A interdisciplinaridade, seus caminhos e descaminhos traz fundamentos conceituais e práticos que falam por si só. Esses fundamentos aplicados à prática influirão na forma de pensar o adolescente e a intervenção institucional. A trilha interdisciplinar aponta as possibilidades para o profissional seja ele o que atua diretamente ou indiretamente com o jovem infrator. Sua efetivação é, ao meu ver, um exercício, de construção e implantação de um novo paradigma.
BIBLIOGRAFIA
FAZENDA, Ivani Catarina Alves (Org.). Práticas Interdisciplinares na Escola. São Paulo: Cortez, 1996.
________. Interdisciplinaridade: qual o sentido? São Paulo: Editora Paulus, 2003.
________. Desafio e perspectivas do trabalho interdisciplinar no Ensino Fundamental Contribuições das pesquisas sobre Interdisciplinaridade no Brasil: O reconhecimento de um percurso. São Paulo: artigo não publicado (s/d).
TEIXEIRA, Maria Elisa de M. P. Interdisciplinaridade: mudança de concepção no ensino. Disponível em http://www.vestibular1.com.br/revisao/interdisciplinaridade Acessado em 2 de abril de 2010.
domingo, 22 de abril de 2012
Recebi de uma seguidora... compartilho com vocês, afinal, diz um pouco sobre todas nós..
"Perder-se também é caminho....”
Clarice Lispector
"Noutro dia me perguntaram como eu fazia para ser tão forte e tranquila para enfrentar com determinação as dificuldades que nos enlouquecem no dia a dia, ainda mais em uma cidade como São Paulo...
Sinceramente? Tomei o maior susto! Logo eu? Filhos, cachorros, alegrias, decepções, tristezas, sou inquieta, gosto de desafios, odeio rotina e por aí vai..
Não soube responder.... realmente levo a vida com espontaneidade suficiente para não conseguir nomear meu caminhar. Sei que não desisto... vou... não, literalmente corro atrás do que eu quero. Como Clarice disse, não tenho medo de me perder ....
Num momento ou outro, me encontro e, verdade seja dita, tenho muita sorte, nunca me faltou uma mão amiga, alguém que me desse um ombro pra chorar, alguém que me estimulasse a continuar.... pessoas que estão no coração e as que estão guardadas na memória com muito carinho..."
domingo, 6 de novembro de 2011
O adolescente autor de ato infracional: contexto sócio-histórico, moral e cultural
Minha especialização em teoria psicanalítica e o mestrado em psicologia clínica tiveram, como objeto de pesquisa, o adolescente infrator, tema que mobiliza e provoca inquietações. Na dissertação pesquisei a teoria winnicottiana do amadurecimento do ser humano e sua aplicabilidade na prática institucional por meio da sistematização de um modelo de atendimento socioeducativo aos adolescentes em cumprimento da medida de privação de liberdade.
O adolescente autor de ato infracional é problema de grande mobilização social. No percurso deste jovem muitas vezes prevalece a invisibilidade e o não-reconhecimento social. A expressão da destrutividade e da violência tornam-se uma forma encontrada pelos adolescentes de “sobreviverem” enquanto sujeitos massificados pelo descaso social.
O psicanalista inglês Donald Woods Winnicott é considerado inovador nas pesquisas sobre adolescência e delinquência . Os estudos da sua obra provocou reflexões e inquietações sobre as especificidades da ações desenvolvidas junto ao jovem. O autor problematiza dois aspectos fundamentais para o estudo do processo adolescente, assim como para a compreensão da delinquência: o primeiro é quando ressalta a importância de uma análise cuidadosa do contexto histórico-social em que o adolescente está inserido e o segundo é o espaço relevante que atribui ao ambiente familiar, que, a seu ver, deve ser suficientemente bom e humano para possibilitar ao bebê um processo contínuo de desenvolvimento emocional.
O autor enfatiza, nos seus escritos, a necessidade da compreensão do adolescente como sujeito de direitos destacando a importância do respeito aos direitos humanos na atenção integral ao jovem com tendência antissocial:
Hoje, como sempre, a questão prática é como manter um ambiente que seja suficientemente humano, e suficientemente forte, para conter os que prestam assistência e os destituídos e delinqüentes que necessitam desesperadamente de cuidados e pertencimento, mas fazem o possível para destruí-los quando o encontram. (1983, p. XVI)
O adolescente que comete um ato infracional pode ter vivenciado a experiência de “não ser visto”, talvez não legitimado na condição de sujeito de direitos sociais básicos. A omissão do Estado, a “invisibilidade” social, o reconhecimento controvertido das instituições, o problema da humilhação social, a violência familiar, pais e filhos numa relação de agressão mútua, uma trama de privações, abandonos ou verdadeiras e privações materiais e afetivas podem levar o jovem a pensar na violência como forma de “marcar” um espaço social.
Nesse contexto de sofrimento, o adolescente sai de casa, fugindo das situações de riscos intrafamiliares. Essa saída, na sua fantasia, é uma possibilidade de romper com o processo de coisificação imposto, tornando-se sujeito de sua própria história por meio de um empoderamento que as ruas conferem. Entretanto, o adolescente encontra nas estruturas urbanas e no grupo marginal outras situações de riscos e isolamento que comprometem seu desenvolvimento, mas, que são vistas como sua única possibilidade de pertença.
O grupo delinquente exige, dos adolescentes e jovens, adesão incondicional o que implica participação coletiva nos ato de furtar, roubar, matar, sequestrar, traficar. O vínculo que se estabelece produz um segredo e cultura comum. A transgressão coletiva pode solidificar o grupo, estabelecer sentimento de pertença e garantir reconhecimento mútuo. Nessa organização o líder exerce o poder, talvez reproduzindo as relações sociais.
É relevante pensar que a diferença na posição social do sujeito pode influenciar, significativamente, na estruturação de sua adolescência. As desigualdades sociais dificultam o processo da adolescência do jovem de classe menos favorecida, pois ele se ocupa de questões básicas de sobrevivência. Os jovens ficam à deriva, não há como desenvolver o sentido da própria identidade, ou seja, não há espaço para sua construção enquanto sujeitos, se é negado o acesso à educação, saúde e respeito.
As pesquisas desenvolvidas sobre o adolescente e delinquência devem ser ampliadas na perspectiva da teoria crítica considerando a psicanálise de Winnicott sobre o processo de amadurecimento emocional do ser humano e o pensamento e Axel Honneth.
No exercício das minhas atribuições profissionais e nos meus estudos transitei por questões essencialistas que perpassam a vida do ser humano como ser inserido num contexto sócio histórico, moral e cultural.
O adolescente autor de ato infracional é problema de grande mobilização social. No percurso deste jovem muitas vezes prevalece a invisibilidade e o não-reconhecimento social. A expressão da destrutividade e da violência tornam-se uma forma encontrada pelos adolescentes de “sobreviverem” enquanto sujeitos massificados pelo descaso social.
O psicanalista inglês Donald Woods Winnicott é considerado inovador nas pesquisas sobre adolescência e delinquência . Os estudos da sua obra provocou reflexões e inquietações sobre as especificidades da ações desenvolvidas junto ao jovem. O autor problematiza dois aspectos fundamentais para o estudo do processo adolescente, assim como para a compreensão da delinquência: o primeiro é quando ressalta a importância de uma análise cuidadosa do contexto histórico-social em que o adolescente está inserido e o segundo é o espaço relevante que atribui ao ambiente familiar, que, a seu ver, deve ser suficientemente bom e humano para possibilitar ao bebê um processo contínuo de desenvolvimento emocional.
O autor enfatiza, nos seus escritos, a necessidade da compreensão do adolescente como sujeito de direitos destacando a importância do respeito aos direitos humanos na atenção integral ao jovem com tendência antissocial:
Hoje, como sempre, a questão prática é como manter um ambiente que seja suficientemente humano, e suficientemente forte, para conter os que prestam assistência e os destituídos e delinqüentes que necessitam desesperadamente de cuidados e pertencimento, mas fazem o possível para destruí-los quando o encontram. (1983, p. XVI)
O adolescente que comete um ato infracional pode ter vivenciado a experiência de “não ser visto”, talvez não legitimado na condição de sujeito de direitos sociais básicos. A omissão do Estado, a “invisibilidade” social, o reconhecimento controvertido das instituições, o problema da humilhação social, a violência familiar, pais e filhos numa relação de agressão mútua, uma trama de privações, abandonos ou verdadeiras e privações materiais e afetivas podem levar o jovem a pensar na violência como forma de “marcar” um espaço social.
Nesse contexto de sofrimento, o adolescente sai de casa, fugindo das situações de riscos intrafamiliares. Essa saída, na sua fantasia, é uma possibilidade de romper com o processo de coisificação imposto, tornando-se sujeito de sua própria história por meio de um empoderamento que as ruas conferem. Entretanto, o adolescente encontra nas estruturas urbanas e no grupo marginal outras situações de riscos e isolamento que comprometem seu desenvolvimento, mas, que são vistas como sua única possibilidade de pertença.
O grupo delinquente exige, dos adolescentes e jovens, adesão incondicional o que implica participação coletiva nos ato de furtar, roubar, matar, sequestrar, traficar. O vínculo que se estabelece produz um segredo e cultura comum. A transgressão coletiva pode solidificar o grupo, estabelecer sentimento de pertença e garantir reconhecimento mútuo. Nessa organização o líder exerce o poder, talvez reproduzindo as relações sociais.
É relevante pensar que a diferença na posição social do sujeito pode influenciar, significativamente, na estruturação de sua adolescência. As desigualdades sociais dificultam o processo da adolescência do jovem de classe menos favorecida, pois ele se ocupa de questões básicas de sobrevivência. Os jovens ficam à deriva, não há como desenvolver o sentido da própria identidade, ou seja, não há espaço para sua construção enquanto sujeitos, se é negado o acesso à educação, saúde e respeito.
As pesquisas desenvolvidas sobre o adolescente e delinquência devem ser ampliadas na perspectiva da teoria crítica considerando a psicanálise de Winnicott sobre o processo de amadurecimento emocional do ser humano e o pensamento e Axel Honneth.
No exercício das minhas atribuições profissionais e nos meus estudos transitei por questões essencialistas que perpassam a vida do ser humano como ser inserido num contexto sócio histórico, moral e cultural.
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