domingo, 22 de julho de 2012
E AGORA? TÁ DIFÍCIL VIVER.....
POEMA BICARBONATO DE SODA
Álvaro de Campos / Fernando Pessoa
"... Uma angústia,
Uma desconsolação da epiderme da alma
Um deixar cair os braços ao por do sol do esforço....
Renego.
Renego tudo.
Renego mais que tudo.....
Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa o cérebro?"
Ao reler o poema de Pessoa penso sobre o sofrimento da alma que acomete tantas pessoas...
A depressão não escolhe idade,poder aquisitivo, gênero, nacionalidade... atinge o ser humano.. chega e instaura-se um vazio.. o vazio do existir...
Inexplicável, difícil de nomear, dar sentido... Como justificar aos outros que perguntam "Mas, por que você está assim?" ou "Você tem tudo... casa, trabalho, família..."
Perguntas que só trazem mais culpa para aquele que sofre.... "não tenho esse direito"...
E a culpa aumenta a dor...
As pessoas não sabem como lidar com um amigo, um familiar que está deprimido.. Não existe uma ressonância da alma.. um raio x qualquer que mostre a ferida, o vazio, o buraco..
A intensidade das emoções a fragilidade do ser remete a Pessoa que com palavras mágicas diz sobre o indizível..
Cuidado, carinho, amor é o que as pessoas deprimidas precisam..
A psicoterapia, aliada ou não a um acompanhamento psiquiátrico, obtem excelentes resultados.
Não dá para cruzar os braços e achar que "...isso passa".
Pode até vir uma melhora espontânea sim, mas é importante descobrir as causas subjacentes ao sintoma uma vez que, se não forem descobertas e tratadas num processo de terapia, os sintomas retornam.. batem à porta... muitas vezes com maior intensidade.
Não podemos minimizar nem banalizar o sofrimento do outro.. que luta dia após dia para sobreviver ao caos interno ...
Fica difícil viver assim..
domingo, 10 de junho de 2012
O SER HUMANO E O RESPEITO À ALTERIDADE
Neste dia em que aconteceu a "Parada GLBT", na cidade de São Paulo, ouvindo a música e a animação aqui da minha casa, pensei na importância das palavras sobre Direitos Humanos escritas por uma psicanalista a quem muito admiro.
A psicanalista Maria Rita Kehl ssinala que temos responsabilidade por todos os seres humanos. É necessário conseguirmos superar as diferenças e lidar com a alteridade. Isso nos manterá íntegros e humanos. Diz a autora:
"É a fraternidade no sentido de que a nossa humanidade depende da nossa vida em coletividade.
Nós dependemos uns dos outros.
O outro, além de ser o nosso rival ou alguém que pode nos importunar,
é o nosso parceiro e é o nosso espelho
Portanto, a degradação do outro degrada a minha dimensão humana. Então, a ideia do espirito fraterno que deve nortear a relação entre os homens é uma ideia não necessariamente do outro como estranho – também isso é importante -, mas do outro como uma dimensão da qual depende a minha própria humanidade" (KHEL, 2004, p. 31).
O "estranhamento" ao que é novo, às escolhas, às diferenças pessoais e sociais devem levar-nos à reflexão...evitando assim, uma ação impulsiva.
O importante é reconhecermos nossa própria falta de flexibilidade quando nos deparamos com identidades que não são àquelas ditas "tradicionais". Somos livres para lutar por nossos ideais, crenças e pelos nossos direitos políticos.
Finalizo com o artigo II da Declaração Universal dos Direitos Humanos - Nações Unidas de 1948:
"Todas as pessoas tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidas nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de qualquer outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento ou qualquer outra razão".
BIBLIOGRAFIA:
KEHL, Maria Rita. Subjetividade,Política e Direitos Humanos In: SILVA, Marcus Vinícius de Oliveira (coord). Psicologia e Direitos Humanos: Subjetividade e Exclusão. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004 (p. 29-40).
domingo, 27 de maio de 2012
A INTERDISCIPLINARIDADE E A PRÁTICA SOCIOEDUCATIVA
Artigo elaborado a partir das pesquisas e reflexões sobre Interdisciplinaridade de Ivani Fazenda
Fazenda (1996, p. 14, grifos meus) diz que “perceber-se interdisciplinar é o primeiro movimento em direção a um fazer interdisciplinar e a um pensar interdisciplinar”. Partindo desse pressuposto pretende-se promover uma reflexão, a partir das inúmeras pesquisas coordenadas por Ivani Fazenda que, desde 1986, está à frente do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Interdisciplinaridade na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP.
Pensar, numa perspectiva interdisciplinar, remete aos objetivos das Instituições executoras de medidas socioeducativas. Observa-se um esforço contínuo para introduzir na prática institucional a implementação de um atendimento humanizado e personalizado ao adolescente autor de ato infracional.
A interdisciplinaridade não pode ser apenas restrita ao discurso. É necessário o envolvimento e compromisso de todos os profissionais que compõe uma equipe e são responsáveis pela atenção socioeducativa, pelo cuidado prestado aos adolescentes.
A responsabilidade individual é a marca do projeto interdisciplinar, assim, os profissionais envolvidos no projeto estarão, por conseguinte, buscando elementos para revisitar antigas práticas e, num exercício de construção coletiva, introdução o novo que leva a mudança paradigmática.
Partindo das minhas observações, reflexões, estudos, escuta do outro, experiências profissionais, acadêmicas e minha trajetória de vida, passo a tecer considerações sobre os caminhos que a interdisciplinaridade pode desvelar e/ou legitimar o processo socioeducativo do adolescente como também à sua família.
No imaginário de alguns profissionais que atuam nas instituições qualquer conhecimento que leve a uma nova prática está intimamente ligado a uma transformação a um "desdizer o que já foi dito". Assim, estabelece-se uma sensação de impotência e fracasso frente ao desafio. A defesa utilizada é arraigar-se ao antigo: mesmo sendo ruim é o conhecido, novos caminhos são desconhecidos, assustam e paralisam alguns profissionais.
Esse "engessamento", impeditivo do crescimento pessoal e profissional do indivíduo prejudica a dinâmica institucional, o cotidiano em uma unidade. O profissional precisa de um espaço de troca, do reconhecimento do seu saber, do diálogo que romperá essa percepção fragmentária trazendo para a sua existência uma concepção global de mundo. Como diz Paulo Freire “O conhecimento se constitui nas relações homem-mundo”.
A interdisciplinaridade rompe limites, para isso Ivani Fazenda propõe a construção de um conhecimento globalizante, uma postura interdisciplinar de busca, de inclusão, de acordo e de sintonia. Dessa maneira, todos ganham com o "fazer socioeducativo" na linha interdisciplinar, os profissionais compromissados melhoram a interação com o grupo de trabalho.
A proposta de atuação socioeducativa passa a ser ágil e eficiente tendo a colaboração, parceria e diálogo entre a equipe, trata-se de um fazer coletivo e solidário. Para Ivani Fazenda a dialogicidade pressupõe a intersubjetividade ou seja, o pensamento do outro é tão válido quanto o meu para mim por isso, cada profissional envolvido na ação socioeducativa deve ter uma atitude aberta e receptiva. É primordial olhar o outro – olhar o que é latente e manifesto – desvelando as necessidades do outro enxergando-o como outro e olhar a si mesmo.
Todos ganham ao trilhar pelos caminhos da interdisciplinaridade: o adolescente tem voz e é ouvido considerando-se sua singularidade ao mesmo tempo que recebe os cuidados necessários ao seu desenvolvimento emocional. Além disso, os adolescentes aprendem a trabalhar em grupo, melhoram a interação entre eles, com os socioeducadores e com seus familiares.
O socioeducador é a referência do adolescente e dos seus familiares para tanto, deve ter clareza dos princípios que subsidiam a prática interdisciplinar, como elucida Ivani Fazenda: humildade, espera, respeito, coerência e desapego.
Ser referência é um lugar que implica envolvimento contínuo, uma troca com o grupo constante, uma avaliação e reavaliação da ação socioeducativa. É a responsabilização pela vida do outro e isso implica em ter apoio, suporte e referências. O profissional comprometido com a difícil tarefa de trabalhar com os adolescentes em conflito com a lei precisam da presença permanente da sua equipe, da troca intersubjetiva que o alimente como ser humano e profissional. É um movimento dinâmico, em forma de espiral, busca contínua com afetividade e muita ousadia.
A interdisciplinaridade, seus caminhos e descaminhos traz fundamentos conceituais e práticos que falam por si só. Esses fundamentos aplicados à prática influirão na forma de pensar o adolescente e a intervenção institucional. A trilha interdisciplinar aponta as possibilidades para o profissional seja ele o que atua diretamente ou indiretamente com o jovem infrator. Sua efetivação é, ao meu ver, um exercício, de construção e implantação de um novo paradigma.
BIBLIOGRAFIA
FAZENDA, Ivani Catarina Alves (Org.). Práticas Interdisciplinares na Escola. São Paulo: Cortez, 1996.
________. Interdisciplinaridade: qual o sentido? São Paulo: Editora Paulus, 2003.
________. Desafio e perspectivas do trabalho interdisciplinar no Ensino Fundamental Contribuições das pesquisas sobre Interdisciplinaridade no Brasil: O reconhecimento de um percurso. São Paulo: artigo não publicado (s/d).
TEIXEIRA, Maria Elisa de M. P. Interdisciplinaridade: mudança de concepção no ensino. Disponível em http://www.vestibular1.com.br/revisao/interdisciplinaridade Acessado em 2 de abril de 2010.
Fazenda (1996, p. 14, grifos meus) diz que “perceber-se interdisciplinar é o primeiro movimento em direção a um fazer interdisciplinar e a um pensar interdisciplinar”. Partindo desse pressuposto pretende-se promover uma reflexão, a partir das inúmeras pesquisas coordenadas por Ivani Fazenda que, desde 1986, está à frente do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Interdisciplinaridade na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP.
Pensar, numa perspectiva interdisciplinar, remete aos objetivos das Instituições executoras de medidas socioeducativas. Observa-se um esforço contínuo para introduzir na prática institucional a implementação de um atendimento humanizado e personalizado ao adolescente autor de ato infracional.
A interdisciplinaridade não pode ser apenas restrita ao discurso. É necessário o envolvimento e compromisso de todos os profissionais que compõe uma equipe e são responsáveis pela atenção socioeducativa, pelo cuidado prestado aos adolescentes.
A responsabilidade individual é a marca do projeto interdisciplinar, assim, os profissionais envolvidos no projeto estarão, por conseguinte, buscando elementos para revisitar antigas práticas e, num exercício de construção coletiva, introdução o novo que leva a mudança paradigmática.
Partindo das minhas observações, reflexões, estudos, escuta do outro, experiências profissionais, acadêmicas e minha trajetória de vida, passo a tecer considerações sobre os caminhos que a interdisciplinaridade pode desvelar e/ou legitimar o processo socioeducativo do adolescente como também à sua família.
No imaginário de alguns profissionais que atuam nas instituições qualquer conhecimento que leve a uma nova prática está intimamente ligado a uma transformação a um "desdizer o que já foi dito". Assim, estabelece-se uma sensação de impotência e fracasso frente ao desafio. A defesa utilizada é arraigar-se ao antigo: mesmo sendo ruim é o conhecido, novos caminhos são desconhecidos, assustam e paralisam alguns profissionais.
Esse "engessamento", impeditivo do crescimento pessoal e profissional do indivíduo prejudica a dinâmica institucional, o cotidiano em uma unidade. O profissional precisa de um espaço de troca, do reconhecimento do seu saber, do diálogo que romperá essa percepção fragmentária trazendo para a sua existência uma concepção global de mundo. Como diz Paulo Freire “O conhecimento se constitui nas relações homem-mundo”.
A interdisciplinaridade rompe limites, para isso Ivani Fazenda propõe a construção de um conhecimento globalizante, uma postura interdisciplinar de busca, de inclusão, de acordo e de sintonia. Dessa maneira, todos ganham com o "fazer socioeducativo" na linha interdisciplinar, os profissionais compromissados melhoram a interação com o grupo de trabalho.
A proposta de atuação socioeducativa passa a ser ágil e eficiente tendo a colaboração, parceria e diálogo entre a equipe, trata-se de um fazer coletivo e solidário. Para Ivani Fazenda a dialogicidade pressupõe a intersubjetividade ou seja, o pensamento do outro é tão válido quanto o meu para mim por isso, cada profissional envolvido na ação socioeducativa deve ter uma atitude aberta e receptiva. É primordial olhar o outro – olhar o que é latente e manifesto – desvelando as necessidades do outro enxergando-o como outro e olhar a si mesmo.
Todos ganham ao trilhar pelos caminhos da interdisciplinaridade: o adolescente tem voz e é ouvido considerando-se sua singularidade ao mesmo tempo que recebe os cuidados necessários ao seu desenvolvimento emocional. Além disso, os adolescentes aprendem a trabalhar em grupo, melhoram a interação entre eles, com os socioeducadores e com seus familiares.
O socioeducador é a referência do adolescente e dos seus familiares para tanto, deve ter clareza dos princípios que subsidiam a prática interdisciplinar, como elucida Ivani Fazenda: humildade, espera, respeito, coerência e desapego.
Ser referência é um lugar que implica envolvimento contínuo, uma troca com o grupo constante, uma avaliação e reavaliação da ação socioeducativa. É a responsabilização pela vida do outro e isso implica em ter apoio, suporte e referências. O profissional comprometido com a difícil tarefa de trabalhar com os adolescentes em conflito com a lei precisam da presença permanente da sua equipe, da troca intersubjetiva que o alimente como ser humano e profissional. É um movimento dinâmico, em forma de espiral, busca contínua com afetividade e muita ousadia.
A interdisciplinaridade, seus caminhos e descaminhos traz fundamentos conceituais e práticos que falam por si só. Esses fundamentos aplicados à prática influirão na forma de pensar o adolescente e a intervenção institucional. A trilha interdisciplinar aponta as possibilidades para o profissional seja ele o que atua diretamente ou indiretamente com o jovem infrator. Sua efetivação é, ao meu ver, um exercício, de construção e implantação de um novo paradigma.
BIBLIOGRAFIA
FAZENDA, Ivani Catarina Alves (Org.). Práticas Interdisciplinares na Escola. São Paulo: Cortez, 1996.
________. Interdisciplinaridade: qual o sentido? São Paulo: Editora Paulus, 2003.
________. Desafio e perspectivas do trabalho interdisciplinar no Ensino Fundamental Contribuições das pesquisas sobre Interdisciplinaridade no Brasil: O reconhecimento de um percurso. São Paulo: artigo não publicado (s/d).
TEIXEIRA, Maria Elisa de M. P. Interdisciplinaridade: mudança de concepção no ensino. Disponível em http://www.vestibular1.com.br/revisao/interdisciplinaridade Acessado em 2 de abril de 2010.
domingo, 22 de abril de 2012
Recebi de uma seguidora... compartilho com vocês, afinal, diz um pouco sobre todas nós..
"Perder-se também é caminho....”
Clarice Lispector
"Noutro dia me perguntaram como eu fazia para ser tão forte e tranquila para enfrentar com determinação as dificuldades que nos enlouquecem no dia a dia, ainda mais em uma cidade como São Paulo...
Sinceramente? Tomei o maior susto! Logo eu? Filhos, cachorros, alegrias, decepções, tristezas, sou inquieta, gosto de desafios, odeio rotina e por aí vai..
Não soube responder.... realmente levo a vida com espontaneidade suficiente para não conseguir nomear meu caminhar. Sei que não desisto... vou... não, literalmente corro atrás do que eu quero. Como Clarice disse, não tenho medo de me perder ....
Num momento ou outro, me encontro e, verdade seja dita, tenho muita sorte, nunca me faltou uma mão amiga, alguém que me desse um ombro pra chorar, alguém que me estimulasse a continuar.... pessoas que estão no coração e as que estão guardadas na memória com muito carinho..."
domingo, 6 de novembro de 2011
O adolescente autor de ato infracional: contexto sócio-histórico, moral e cultural
Minha especialização em teoria psicanalítica e o mestrado em psicologia clínica tiveram, como objeto de pesquisa, o adolescente infrator, tema que mobiliza e provoca inquietações. Na dissertação pesquisei a teoria winnicottiana do amadurecimento do ser humano e sua aplicabilidade na prática institucional por meio da sistematização de um modelo de atendimento socioeducativo aos adolescentes em cumprimento da medida de privação de liberdade.
O adolescente autor de ato infracional é problema de grande mobilização social. No percurso deste jovem muitas vezes prevalece a invisibilidade e o não-reconhecimento social. A expressão da destrutividade e da violência tornam-se uma forma encontrada pelos adolescentes de “sobreviverem” enquanto sujeitos massificados pelo descaso social.
O psicanalista inglês Donald Woods Winnicott é considerado inovador nas pesquisas sobre adolescência e delinquência . Os estudos da sua obra provocou reflexões e inquietações sobre as especificidades da ações desenvolvidas junto ao jovem. O autor problematiza dois aspectos fundamentais para o estudo do processo adolescente, assim como para a compreensão da delinquência: o primeiro é quando ressalta a importância de uma análise cuidadosa do contexto histórico-social em que o adolescente está inserido e o segundo é o espaço relevante que atribui ao ambiente familiar, que, a seu ver, deve ser suficientemente bom e humano para possibilitar ao bebê um processo contínuo de desenvolvimento emocional.
O autor enfatiza, nos seus escritos, a necessidade da compreensão do adolescente como sujeito de direitos destacando a importância do respeito aos direitos humanos na atenção integral ao jovem com tendência antissocial:
Hoje, como sempre, a questão prática é como manter um ambiente que seja suficientemente humano, e suficientemente forte, para conter os que prestam assistência e os destituídos e delinqüentes que necessitam desesperadamente de cuidados e pertencimento, mas fazem o possível para destruí-los quando o encontram. (1983, p. XVI)
O adolescente que comete um ato infracional pode ter vivenciado a experiência de “não ser visto”, talvez não legitimado na condição de sujeito de direitos sociais básicos. A omissão do Estado, a “invisibilidade” social, o reconhecimento controvertido das instituições, o problema da humilhação social, a violência familiar, pais e filhos numa relação de agressão mútua, uma trama de privações, abandonos ou verdadeiras e privações materiais e afetivas podem levar o jovem a pensar na violência como forma de “marcar” um espaço social.
Nesse contexto de sofrimento, o adolescente sai de casa, fugindo das situações de riscos intrafamiliares. Essa saída, na sua fantasia, é uma possibilidade de romper com o processo de coisificação imposto, tornando-se sujeito de sua própria história por meio de um empoderamento que as ruas conferem. Entretanto, o adolescente encontra nas estruturas urbanas e no grupo marginal outras situações de riscos e isolamento que comprometem seu desenvolvimento, mas, que são vistas como sua única possibilidade de pertença.
O grupo delinquente exige, dos adolescentes e jovens, adesão incondicional o que implica participação coletiva nos ato de furtar, roubar, matar, sequestrar, traficar. O vínculo que se estabelece produz um segredo e cultura comum. A transgressão coletiva pode solidificar o grupo, estabelecer sentimento de pertença e garantir reconhecimento mútuo. Nessa organização o líder exerce o poder, talvez reproduzindo as relações sociais.
É relevante pensar que a diferença na posição social do sujeito pode influenciar, significativamente, na estruturação de sua adolescência. As desigualdades sociais dificultam o processo da adolescência do jovem de classe menos favorecida, pois ele se ocupa de questões básicas de sobrevivência. Os jovens ficam à deriva, não há como desenvolver o sentido da própria identidade, ou seja, não há espaço para sua construção enquanto sujeitos, se é negado o acesso à educação, saúde e respeito.
As pesquisas desenvolvidas sobre o adolescente e delinquência devem ser ampliadas na perspectiva da teoria crítica considerando a psicanálise de Winnicott sobre o processo de amadurecimento emocional do ser humano e o pensamento e Axel Honneth.
No exercício das minhas atribuições profissionais e nos meus estudos transitei por questões essencialistas que perpassam a vida do ser humano como ser inserido num contexto sócio histórico, moral e cultural.
O adolescente autor de ato infracional é problema de grande mobilização social. No percurso deste jovem muitas vezes prevalece a invisibilidade e o não-reconhecimento social. A expressão da destrutividade e da violência tornam-se uma forma encontrada pelos adolescentes de “sobreviverem” enquanto sujeitos massificados pelo descaso social.
O psicanalista inglês Donald Woods Winnicott é considerado inovador nas pesquisas sobre adolescência e delinquência . Os estudos da sua obra provocou reflexões e inquietações sobre as especificidades da ações desenvolvidas junto ao jovem. O autor problematiza dois aspectos fundamentais para o estudo do processo adolescente, assim como para a compreensão da delinquência: o primeiro é quando ressalta a importância de uma análise cuidadosa do contexto histórico-social em que o adolescente está inserido e o segundo é o espaço relevante que atribui ao ambiente familiar, que, a seu ver, deve ser suficientemente bom e humano para possibilitar ao bebê um processo contínuo de desenvolvimento emocional.
O autor enfatiza, nos seus escritos, a necessidade da compreensão do adolescente como sujeito de direitos destacando a importância do respeito aos direitos humanos na atenção integral ao jovem com tendência antissocial:
Hoje, como sempre, a questão prática é como manter um ambiente que seja suficientemente humano, e suficientemente forte, para conter os que prestam assistência e os destituídos e delinqüentes que necessitam desesperadamente de cuidados e pertencimento, mas fazem o possível para destruí-los quando o encontram. (1983, p. XVI)
O adolescente que comete um ato infracional pode ter vivenciado a experiência de “não ser visto”, talvez não legitimado na condição de sujeito de direitos sociais básicos. A omissão do Estado, a “invisibilidade” social, o reconhecimento controvertido das instituições, o problema da humilhação social, a violência familiar, pais e filhos numa relação de agressão mútua, uma trama de privações, abandonos ou verdadeiras e privações materiais e afetivas podem levar o jovem a pensar na violência como forma de “marcar” um espaço social.
Nesse contexto de sofrimento, o adolescente sai de casa, fugindo das situações de riscos intrafamiliares. Essa saída, na sua fantasia, é uma possibilidade de romper com o processo de coisificação imposto, tornando-se sujeito de sua própria história por meio de um empoderamento que as ruas conferem. Entretanto, o adolescente encontra nas estruturas urbanas e no grupo marginal outras situações de riscos e isolamento que comprometem seu desenvolvimento, mas, que são vistas como sua única possibilidade de pertença.
O grupo delinquente exige, dos adolescentes e jovens, adesão incondicional o que implica participação coletiva nos ato de furtar, roubar, matar, sequestrar, traficar. O vínculo que se estabelece produz um segredo e cultura comum. A transgressão coletiva pode solidificar o grupo, estabelecer sentimento de pertença e garantir reconhecimento mútuo. Nessa organização o líder exerce o poder, talvez reproduzindo as relações sociais.
É relevante pensar que a diferença na posição social do sujeito pode influenciar, significativamente, na estruturação de sua adolescência. As desigualdades sociais dificultam o processo da adolescência do jovem de classe menos favorecida, pois ele se ocupa de questões básicas de sobrevivência. Os jovens ficam à deriva, não há como desenvolver o sentido da própria identidade, ou seja, não há espaço para sua construção enquanto sujeitos, se é negado o acesso à educação, saúde e respeito.
As pesquisas desenvolvidas sobre o adolescente e delinquência devem ser ampliadas na perspectiva da teoria crítica considerando a psicanálise de Winnicott sobre o processo de amadurecimento emocional do ser humano e o pensamento e Axel Honneth.
No exercício das minhas atribuições profissionais e nos meus estudos transitei por questões essencialistas que perpassam a vida do ser humano como ser inserido num contexto sócio histórico, moral e cultural.
domingo, 31 de julho de 2011
Estágio do concernimento
[...] eu me preocupo muito com o desenvolvimento da capacidade para a preocupação (Concern).
Winnicott (1948)
Winnicott (1963) formula sua compreensão acerca do estágio do concernimento, frisando “ser uma condição para a conquista do concernimento a passagem pelos estágios iniciais sem demasiados problemas” (Moraes, 2005, p. 220, grifo da autora). Entendemos que é importante ressaltar esta introdução ao estudo deste estágio realizada pelo autor:
Estamos examinando a psicologia do estágio que acontece imediatamente depois do novo ser humano ter alcançado o status de unidade [...] Gostaria de deixar aqui a observação de que quanto mais recuarmos na história individual, mais verdadeira se torna a proposição segundo a qual não há sentido em falarmos sobre o indivíduo sem considerarmos um ambiente suficientemente bom que se adapte às suas necessidades (2000 [1954-5, p. 360].).
A capacidade para o concernimento resulta de um cuidado suficientemente bom e seu desenvolvimento está ligado à saúde psíquica. No desenvolvimento emocional certas condições externas são necessárias para o amadurecimento pessoal. Como Winnicott diz:
A provisão ambiental continua a ser vitalmente importante aqui, embora o lactente esteja sendo capaz de possuir uma estabilidade interna que faz parte do desenvolvimento da independência (1983 [1963], p.72).
Assim, mediante estes cuidados, o bebê alcança, em algum grau, o estatuto de um EU unitário como também já pode realizar a tarefa de integração da vida instintual. Estes seriam os pré-requisitos para a entrada no estágio do concernimento.
O bebê aqui já se percebe como uma unidade e à mãe como pessoa separada, inicia a integração da instintualidade como parte do seu eu. A criança percebe que ama e odeia o mundo fora dela e a realidade de que possui impulsos amorosos e destrutivos para com o mesmo objeto. Desta forma, se vê concernida pelo amor e pelo ódio, Winnicott é enfático ao afirmar que só a sustentação ambiental permite esta relação.
Portanto, o concernimento (Concern), considerado por Winnicott como uma experiência que demanda certo desenvolvimento emocional, surge com a integração da mãe-ambiente e mãe-objeto na mente do bebê. É neste estágio que ocorrem alterações importantes no mundo interno da criança em função do seu amadurecimento pessoal.
Para ele, o termo concernimento é utilizado para dar conta, de um modo positivo, do fenômeno que é abarcado negativamente pela palavra ‘culpa’. O concernimento implica uma maior integração e relaciona-se a um sentimento de responsabilidade, refere-se ao fato de que o indivíduo se importa ou se preocupa, aceitando a sua responsabilidade.
O autor diz que nesta fase a relação é eminentemente dual, mas, embora tente situar a época em que o momento ocorre, acredita que não existe uma precisão absoluta uma vez que o amadurecimento do ser humano acontece ao longo da vida:
Há uma boa razão para se acreditar que preocupação – com seu aspecto positivo – emerge no desenvolvimento emocional inicial da criança em um período anterior ao do clássico complexo de Édipo, que envolve um relacionamento a três pessoas, cada uma sendo percebida como uma pessoa completa pela criança. Mas não há necessidade de ser preciso sobre a época, e na verdade a maioria dos processos que se iniciam no início da infância nunca está completamente estabelecido e continuam a ser reforçados pelo crescimento que continua posteriormente na infância e através da vida adulta, até mesmo na velhice (1983 [1963], p.71).
A elaboração da capacidade para o concernimento é longa e é o fundamento para a capacidade de brincar e, posteriormente, trabalhar. Em seu texto de 1963, Winnicott esclarece:
Preocupação indica o fato do indivíduo se importar, ou valorizar, e tanto sentir como aceitar responsabilidade. Em nível genital no enunciado da teoria do desenvolvimento, preocupação pode ser considerada a base da família, cujos membros unidos na cópula – além de seu prazer – assumem responsabilidade pelo resultado. Mas na vida imaginária total do indivíduo, o tema da preocupação levanta até questão mais ampla, e a capacidade de se preocupar está na base de todo brinquedo e trabalho construtivo. Pertence ao viver normal, sadio, e merece a atenção do psicanalista.
*Parte de capítulo da minha dissertação de mestrado.
Winnicott (1948)
Winnicott (1963) formula sua compreensão acerca do estágio do concernimento, frisando “ser uma condição para a conquista do concernimento a passagem pelos estágios iniciais sem demasiados problemas” (Moraes, 2005, p. 220, grifo da autora). Entendemos que é importante ressaltar esta introdução ao estudo deste estágio realizada pelo autor:
Estamos examinando a psicologia do estágio que acontece imediatamente depois do novo ser humano ter alcançado o status de unidade [...] Gostaria de deixar aqui a observação de que quanto mais recuarmos na história individual, mais verdadeira se torna a proposição segundo a qual não há sentido em falarmos sobre o indivíduo sem considerarmos um ambiente suficientemente bom que se adapte às suas necessidades (2000 [1954-5, p. 360].).
A capacidade para o concernimento resulta de um cuidado suficientemente bom e seu desenvolvimento está ligado à saúde psíquica. No desenvolvimento emocional certas condições externas são necessárias para o amadurecimento pessoal. Como Winnicott diz:
A provisão ambiental continua a ser vitalmente importante aqui, embora o lactente esteja sendo capaz de possuir uma estabilidade interna que faz parte do desenvolvimento da independência (1983 [1963], p.72).
Assim, mediante estes cuidados, o bebê alcança, em algum grau, o estatuto de um EU unitário como também já pode realizar a tarefa de integração da vida instintual. Estes seriam os pré-requisitos para a entrada no estágio do concernimento.
O bebê aqui já se percebe como uma unidade e à mãe como pessoa separada, inicia a integração da instintualidade como parte do seu eu. A criança percebe que ama e odeia o mundo fora dela e a realidade de que possui impulsos amorosos e destrutivos para com o mesmo objeto. Desta forma, se vê concernida pelo amor e pelo ódio, Winnicott é enfático ao afirmar que só a sustentação ambiental permite esta relação.
Portanto, o concernimento (Concern), considerado por Winnicott como uma experiência que demanda certo desenvolvimento emocional, surge com a integração da mãe-ambiente e mãe-objeto na mente do bebê. É neste estágio que ocorrem alterações importantes no mundo interno da criança em função do seu amadurecimento pessoal.
Para ele, o termo concernimento é utilizado para dar conta, de um modo positivo, do fenômeno que é abarcado negativamente pela palavra ‘culpa’. O concernimento implica uma maior integração e relaciona-se a um sentimento de responsabilidade, refere-se ao fato de que o indivíduo se importa ou se preocupa, aceitando a sua responsabilidade.
O autor diz que nesta fase a relação é eminentemente dual, mas, embora tente situar a época em que o momento ocorre, acredita que não existe uma precisão absoluta uma vez que o amadurecimento do ser humano acontece ao longo da vida:
Há uma boa razão para se acreditar que preocupação – com seu aspecto positivo – emerge no desenvolvimento emocional inicial da criança em um período anterior ao do clássico complexo de Édipo, que envolve um relacionamento a três pessoas, cada uma sendo percebida como uma pessoa completa pela criança. Mas não há necessidade de ser preciso sobre a época, e na verdade a maioria dos processos que se iniciam no início da infância nunca está completamente estabelecido e continuam a ser reforçados pelo crescimento que continua posteriormente na infância e através da vida adulta, até mesmo na velhice (1983 [1963], p.71).
A elaboração da capacidade para o concernimento é longa e é o fundamento para a capacidade de brincar e, posteriormente, trabalhar. Em seu texto de 1963, Winnicott esclarece:
Preocupação indica o fato do indivíduo se importar, ou valorizar, e tanto sentir como aceitar responsabilidade. Em nível genital no enunciado da teoria do desenvolvimento, preocupação pode ser considerada a base da família, cujos membros unidos na cópula – além de seu prazer – assumem responsabilidade pelo resultado. Mas na vida imaginária total do indivíduo, o tema da preocupação levanta até questão mais ampla, e a capacidade de se preocupar está na base de todo brinquedo e trabalho construtivo. Pertence ao viver normal, sadio, e merece a atenção do psicanalista.
*Parte de capítulo da minha dissertação de mestrado.
domingo, 17 de julho de 2011
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